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terça-feira, 18 de março de 2008

Capoeira, prostitutas e ronaldinhos

Para estudiosa da xenofobia, a imagem do País lá fora pode influenciar decisões na alfândega

Mônica Manir - O Estado de S.Paulo

SÃO PAULO - A professora da Unesp Dalva Aleixo Dias morou na Espanha de dezembro de 1996 a agosto de 1999. Foi fazer doutorado em ciências da informação, cujo foco era "imprensa e imigrantes, a questão da xenofobia e do racismo". Confirmou o que supunha: muitos jornais associavam manchetes negativas ao imigrante, ainda que o imigrante estivesse apenas fazendo uma ingênua festa de aniversário na sua comunidade. Por uma ingenuidade, Dalba, como era oficialmente chamada, quase foi extraditada depois de uma resposta atravessada a um funcionário da estrangería, que desabafou: "Não preciso de documento algum seu, só quero que vocês todos voltem para o seu país".

Conseguiu ficar até o final dos estudos. Conseguiu, inclusive, fazer amigos na Espanha. A lição que aprendeu é que a cultura da xenofobia contamina o institucional, principalmente em tempos de desemprego e de eleição no país de destino. Ainda que se cumpram as regras para passar pela fronteira, sobrevive uma imagem petrificada, que pode contaminar o futuro do imigrante. No caso do Brasil, a prostituição, o mundo do entretenimento e o futebol ainda compõem a moldura do nosso espelho. Que, aparentemente, deu uma trincada. Dalva reclama que só conhece acordos feitos para proteger o país de destino. "Tirando o dos exilados, não sei de um tratado que se preocupe com os imigrantes."

A Espanha barrou a entrada de aproximadamente 950 brasileiros em pouco mais de dois meses, quase um terço do total de deportados ao longo de todo o ano passado. Há uma perseguição espanhola contra os brasileiros?

Existe uma lista de documentos que precisa ser preenchida quando se viaja para um determinado país. Ela deve ser cumprida, daqui para lá e vice-versa. A triagem, aliás, deveria ser feita no próprio consulado. Melhor do que deixá-la na mão de um funcionário da alfândega, que tem poder de polícia e pode barrar um imigrante durante 27 horas até a entrevista ou mesmo chamá-lo de cachorro (filhote) ou perro (cachorro). Muitas vezes esse funcionário não conhece a cultura do estrangeiro e baseia o aval ou a deportação numa visão preconceituosa.

Qual é a imagem dos brasileiros na Espanha?

Não somos vistos como latino-americanos, e sim como uma mescla de indígenas com africanos, junção de homem selvagem com homem irracional. Lembro de um documentário espanhol sobre o Brasil em que se lia a carta de Pero Vaz de Caminha com mulatas de fio dental ao fundo. Esse é o estereótipo. Quando vêem que alguns de nós têm traços que fogem ao padrão, recorrem a nossa ascendência para nos enquadrar como europeus. Vale a lei do sangue. Dizem: "Você não é mulata nem dança samba, então não é brasileira". Mostrar que temos várias identidades, que as mulheres brasileiras podem, por exemplo, fazer faculdade, mestrado, doutorado parece inconcebível.

Contribui para esse estereótipo o fato de as brasileiras serem prostitutas muito requisitadas lá?

Sim, elas são as prostitutas mais bem-sucedidas. Recebem cerca de 20 salários mínimos por mês. Conheci cubanas que se faziam passar por brasileiras para conseguir mais clientes. A maioria já era prostituta no Brasil, algumas delas com filhos e muitas delas migrantes internas. Saem do Nordeste, do Norte e do Centro-Oeste em direção ao Rio e São Paulo atrás de um lugar para ganhar o pão. Quando requisitadas para trabalhar na Europa, vão contratadas legalmente como dançarinas. Trabalham de março a dezembro, das 22h às 5h, na sala de fiestas, onde fazem shows seguidos de programas. Ganham bem, mas à custa de uma vida socialmente clandestina.

Elas não são donas de seus passaportes?

Não. O passaporte é retido pelo proprietário da boate, para quem elas já partem daqui devendo o dinheiro da passagem. Vivem sob vigilância cerrada. Até mesmo o taxista que as leva para o apartamento onde moram é contratado pelo dono da sala. As prostitutas não saem por nada, não convivem com a comunidade, compras de supermercado chegam até elas. Passam o dia assistindo à televisão, onde a imagem que se vê do Brasil é das piores.

Saem enganadas daqui?

O jogo para elas é claro. E as condições ruins nas quais sempre viveram as mantêm, de certa forma, conformadas com a nova situação. Mas acalentam o sonho de comprar uma casa para a família que ficou no Brasil e de casar com um europeu que aceite seu filho.

Há muitos garotos de programa também?

Sim, embora eu saiba de mais garotos de programa em Portugal. São contratados como animadores de festas na Espanha. Vi muitos com 18, 20 anos. As prostitutas têm entre 21 e 32 anos, média de idade dos jogadores de futebol.

As brasileiras que seguem os jogadores na Espanha acentuam esse rótulo de "mulheres fáceis"?

Eu diria que é o contrário: as espanholas é que ficam doidas pelos jogadores brasileiros. O que acontece é que muitos desses jogadores também passam a imagem de escravos. Em geral ganham mais do que ganhavam no Brasil, mas sofrem uma pressão terrível - desde o processo de contratação, quando a imprensa noticia que um clube está oferecendo certa quantia, mas o outro pode cobrir a oferta milionária. Ao chegar, precisam mostrar forma física impecável e corresponder de imediato ao investimento. Como as prostitutas, também ficam isolados, concentrados, longe de sua cultura, de sua comida, da mãe e do pai. A gaiola parece de ouro, mas é uma gaiola.

Como vive o grande número de músicos que migra para a Espanha?

A MPB entrou no circuito do jazz, da elite. O samba é sinônimo de alegria, de liberação. A música é a nossa maior diplomata, ao lado da capoeira. Muita gente aprende o português só para jogar com os capoeiristas. A capoeira se expandiu na modalidade angolana e numa mais rápida, que envolve saltos mortais, lembrando o circo chinês. Os capoeiristas se apresentam em hotéis de luxo com maculelê, tudo bem bonito, mas depois fazem uma performance com danças tribais africanas. Estamos literalmente ligados à África, de novo. Vale lembrar que esses capoeiristas, quando se machucam, não têm apoio nenhum do governo nem de quem os contratou.

A Comissão Européia estuda um pacote de leis para penalizar quem emprega imigrantes ilegais até com a prisão. A senhora acredita que ela levará isso adiante?

A clandestinidade não interessa a ninguém, a não ser àqueles que se beneficiam da mão-de-obra barata. Se estão dispostos a legalizar os imigrantes, parabéns! A Europa precisa de trabalhadores estrangeiros para crescer, seja na agricultura, nos trabalhos ditos domésticos, na pesquisa científica. Há lista de espera de mais de seis meses na Espanha para contratar um pedreiro. Falta mecânico, encanador, empregadas domésticas, babás, até enfermeiras. Se legalizadas, essas pessoas passariam com dignidade pelas fronteiras, diminuiria o preconceito social. Elas poderiam dizer: eu contribuo, no mínimo, com a seguridade social, não sou um peso para seu país.

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